Leite Derramado, a última obra literária de Chico Buarque, é um exercício de concentração e atenção. Por mais que os capítulos curtos façam a leitura fluir e a prosa seja insaciante, temos uma estrutura baseada na esburacada memória de um centenário senhor de idade, abandonado em um hospital. A narrativa, à princípio, confunde e se propõe a provocar o leitor, afinal, a senilidade é refletida na forma do texto. A partir do momento que o leitor capta as entrelinhas, começa a “ouvir” Eulálio Montenegro d'Assumpção destacar com graça e riqueza de detalhes seu passado, se repetindo, se enganando com nomes e revirando sua memória para pessoas que não lhe dão atenção.

A decadência financeira e a perda de prestígio de seu sobrenome, para ele, caminha para a decadência moral e, ainda assim, o personagem mantêm o tom nobre apesar das condições de saúde (fratura do fêmur, escaras, furúnculos) e de descaso (as péssimas instalações, a filha e os médicos pouco se importando com suas histórias). A influência dos Assumpção, que outrora “abria portas”, perde força e ruma para o desconhecimento com o passar do tempo. Seu monólogo é repleto de uma delicada crítica à velhice, elaborada, capaz de nos lembrar as vozes idosas que buscam atenção nos ouvidos da juventude.
Se com a idade a gente dá para repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço da alma, é por esmero. […] como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese da história se extraviar.
Por outro lado, a figura de Matilde, a esposa, é perene na memória de Eulálio. É relembrada com cuidado até nos momentos em que narra a possibilidade do adultério e faz referência com o título de uma forma sensível e original. Seu grande amor, citado até nos momentos em que flerta com as enfermeiras, leva uma sutil referência de outras mulheres da prosa de Chico Buarque: uma independência acima do amor e da paixão. Mas isso é assunto para outro texto.
Leite Derramado
Autor: Chico Buarque de Hollanda
Gênero: Romance Brasileiro
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 200
ISBN: 978-85-359-1411-5
Preço Sugerido: R$ 36,00











Atores brasileiros, espanhóis e cubanos que ora falam em Português, ora em Espanhol, unidos a uma trilha sonora angustiante de Egberto Gismonti, causam certo desconforto. Cenas confusas, quadros curtos, personagem sem nome: não é filme para qualquer mente. Da mesma maneira que “eu”, o personagem principal, não consegue identificar o visitante que insistentemente toca a campainha e foge, a maioria espectadores não apreende o tema de Estorvo e sai correndo da frente da tela. 




O Jogador não fugiu à regra dos trabalhos de Dostoievski e foi escrito em apenas vinte e cinco dias, o que levou o autor a publicar uma pequena nota em que se desculpa por se “apresentar ao público em tão más condições”. Apesar disso, ao longo de quase duzentas páginas ele representa de forma magistral e conquistadora a vida e os vícios de um apaixonado sem objetivos. Mais tarde seus biógrafos revelaram que o protagonista (e narrador) do livro, Aleksei Ivanovich, acabou sendo um personagem muito parecido com seu criador, com quem compartilhava, entre outras coisas, o vício da roleta e a constante falta de dinheiro.
Aleksei narra, em primeira pessoa, para seu diário, as desventuras de sua vida atormentada e sua escravidão amorosa explorada pela bela Polina Aleksandróvina, enteada de um ex-general ex-milionário cuja família entra em decadência através das dívidas de jogo. Apesar de passar uma imagem requintada, a linguagem de Dostoievski é bastante simples, tornando a leitura mais fácil e agradável do que se espera de um autor tão renomado e, sem a menor dúvida, esse mérito pertence principalmente ao tradutor, Moacir Werneck de Castro. A tradução foi feita direto do russo, e vem acompanhada de uma introdução incluída por Moacir que contextualiza o livro, facilitando ainda mais a leitura, e das tradicionais notas de tradução que cobrem as pequenas falhas causadas simplesmente pelas diferenças entre os idiomas. 

O média-metragem "Double Blind - No Sex Last Night" é a atração de Sophie Calle, escritora, fotógrafa, artista plástica e performer francesa, que estará presente na VII edição da Feira Literária Internacional de Parati (FLIP) neste ano. Seu filme mistura fotografia e literatura no vídeo que concentra adversidades, sentimentos e confusões entre as emoções dos personagens durante uma viagem de carro. A questão da intimidade e da ausência de sexo entre o casal é repetitiva e se encaixa no contexto da exposição pois leva o espectador a pensar na relação dos dois como uma grande "mentira". Atuando como atriz juntamente com Greg Shepard, a autora produz um diário de viagem diferente, com duas câmeras, mostrando um sutil diálogo entre os registros da memória e as gravações do casal.



