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terça-feira, 26 de maio de 2009

[174] Memória Cristalizada

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Leite Derramado, a última obra literária de Chico Buarque, é um exercício de concentração e atenção. Por mais que os capítulos curtos façam a leitura fluir e a prosa seja insaciante, temos uma estrutura baseada na esburacada memória de um centenário senhor de idade, abandonado em um hospital. A narrativa, à princípio, confunde e se propõe a provocar o leitor, afinal, a senilidade é refletida na forma do texto. A partir do momento que o leitor capta as entrelinhas, começa a “ouvir” Eulálio Montenegro d'Assumpção destacar com graça e riqueza de detalhes seu passado, se repetindo, se enganando com nomes e revirando sua memória para pessoas que não lhe dão atenção.

A decadência financeira e a perda de prestígio de seu sobrenome, para ele, caminha para a decadência moral e, ainda assim, o personagem mantêm o tom nobre apesar das condições de saúde (fratura do fêmur, escaras, furúnculos) e de descaso (as péssimas instalações, a filha e os médicos pouco se importando com suas histórias). A influência dos Assumpção, que outrora “abria portas”, perde força e ruma para o desconhecimento com o passar do tempo. Seu monólogo é repleto de uma delicada crítica à velhice, elaborada, capaz de nos lembrar as vozes idosas que buscam atenção nos ouvidos da juventude.

Assista a Chico Buarque lendo o primeiro capítulo de Leite Derramado:
Para fazer o download desse capítulo, diretamente do site oficial, clique AQUI.

Se com a idade a gente dá para repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço da alma, é por esmero. […] como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese da história se extraviar.

Por outro lado, a figura de Matilde, a esposa, é perene na memória de Eulálio. É relembrada com cuidado até nos momentos em que narra a possibilidade do adultério e faz referência com o título de uma forma sensível e original. Seu grande amor, citado até nos momentos em que flerta com as enfermeiras, leva uma sutil referência de outras mulheres da prosa de Chico Buarque: uma independência acima do amor e da paixão. Mas isso é assunto para outro texto.






Leite Derramado
Autor: Chico Buarque de Hollanda
Gênero: Romance Brasileiro
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 200
ISBN: 978-85-359-1411-5
Preço Sugerido: R$ 36,00

domingo, 24 de maio de 2009

[173] Retratos do Passado

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Benjamim Zambraia é um modelo fotográfico decadente. Em sua juventude, fotografava com lindas mulheres, em lindos cenários do Rio de Janeiro nos anos 60. Com o passar do tempo, mais velho e esquecido, se surpreende com um rosto aparentemente familiar: Ariela Masé, com as feições e a beleza de um amor do passado, Castana Beatriz. A história do filme “Benjamim”, de Monique Gardemberg, poderia ser apenas mais uma se não tivesse como base a literatura de Chico Buarque, pré requisito para uma análise um pouco mais complicada.

No passado, o ator Danton Mello representa Paulo José, o que gera um pequeno incômodo: Danton não consegue acompanhar o personagem com a mesma maestria que Paulo. Uma comparação inevitável acontece entre as cenas de choro dos dois atores: Paulo, com a foto de Castana nas mãos, após ver Ariela pela primeira vez, e Danton, frente ao espelho, após perder Castana. Uma clara dicotomia entre o belo e o ridículo. Por outro lado, Cléo Pires, como Ariela e Castana, surpreende principalmente pela sua admirável atuação de estreia no cinema.

A narrativa divide-se em dois momentos: o passado e o presente. Nessa estrutura não-linear, o que deixa o espectador perdido é alguma falha (proposital?) na cadência do filme. Alguns pontos mal amarrados acabam deixando a história recortada e o público (que não leu o livro) um pouco perdido, em um vai e vêm que deveria ser sutil, ou apenas percebido pela diferença na fotografia. Em geral, a dificuldade de se adaptar a literatura para o cinema está principalmente na dose de subjetividade que se dá à obra: quando demais, salta aos olhos a presença das entrelinhas, e as interpretações difusas não alcançam a ideia central; quando de menos, o público recebe (e percebe) um roteiro mastigado e cansativo. Neste caso, ficamos com a primeira opção.

sábado, 23 de maio de 2009

[172] Teljesen Csodálatos

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Devia ser proibido debochar de quem se aventura em uma adaptação cinematográfica. Estreou ontem o filme Budapeste, baseado no livro homônimo de Chico Buarque. Carregado de sutilezas narrativas, o roteiro tem várias modificações em relação à história original, mas chega bem perto de manter o tom exato da narração do ghost-writer em crise, e protagonista do filme, José Costa (ou seria Kósta Zsoze?).cartaz_filme

Leonardo Medeiros vive a personagem principal, um escritor talentoso que vende suas palavras pra outras pessoas assinarem a autoria. Voltando de uma convenção em Istambul, José Costa é obrigado a conhecer Budapeste, e se surpreende com a cor da cidade (“Achei que Budapeste era cinzenta, mas Budapeste era amarela…”) dando a largada para a louca história de um homem que vive em uma eterna dúvida entre duas cidades e dois amores, e por isso não consegue se realizar em nenhuma das duas vidas.04

Algumas passagens do livro que foram “omitidas” acabam fazendo falta àqueles que o leram, mas não irão dificultar o entendimento dos que não tiveram esse prazer. Outras cenas, no entanto, não existiam no livro mas acabaram sendo incluídas para mostrar mais a cidade-título. Um bom exemplo disso são os vários momentos em que Kósta Zsoze (como ele é chamado em húngaro) admira a famosa estátua do Escritor Anônimo, um símbolo da cultura húngara que não foi utilizado por Chico Buarque, uma vez que ele ainda não conhecia o país quando escreveu o livro.05

Em um primeiro momento, também ficamos com a impressão de que haveria um exagero nas cenas de sexo (seria trauma por “Primo Basílio”, de Daniel Filho?), porém Walter Carvalho, diretor, e Rita Buzzar, roteirista, acabaram acertando o tom e criaram momentos íntimos sem exibições constrangedoras. Na verdade o roteiro de Budapeste peca por explicar de forma demasiadamente explícita todas as nuances da conturbada relação de José Costa com Kósta Zsoze e suas características psicológicas, detalhes que no livro devem ser percebidos apenas através da compreensão do leitor.

O elenco também foi bem escolhido. Giovanna Antonelli cria muito bem Vanda, a mulher bem-sucedida que, de tanto ser esquecida pelo marido, acabou aprendendo a se esquecer dele também (apesar disso ser mais uma das diferenças entre o filme e o romance). A húngara Gabriela Hámori vive Kriska, a professora que se torna amante de Zsoze, e se encaixa muito bem na fala do protagonista: “branca, branca, branca, bela, bela bela”. E até mesmo Chico Buarque faz uma pontinha no filme (durante poucos segundos e a apenas alguns minutos do final). E falando em húngaro.06

Mas os verdadeiros trunfos do filme são a trilha sonora e a fotografia, de Leo Gandelman e Lula Carvalho, respectivamente. Se a trilha sonora ideal é aquela que, de tão perfeita, só é percebida quando acaba, Gandelman acertou em cheio. Foi uma jogada de mestre colocar o delicioso samba Feijoada Completa, do Chico Buarque (é claro), sendo cantado também em húngaro. E depois de tudo fica até difícil encontrar adjetivos para definir a beleza fotográfica de Budapeste. A leve mudança de cor na alternância entre as duas cidades, do azulado carioca para o amarelado húngaro, cria ambientes perfeitos para o desenvolvimento de cada uma das tramas. Só me resta citar a própria obra nessa definição: “absolutamente admirável”. Ou, já que o húngaro é á única língua que o diabo respeita: “teljesen csodálatos”.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

[171] Do Amarelo ao Mostarda

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“E agora, José?”

Creio ser arriscado analisar a prosa de Chico Buarque porque já é costume elevar sua música como arte incriticável. Assim, transposta para a literatura toda a sua magnificência musical, críticos foram tidos como ousados demais simplesmente por acreditar que Chico como romancista, seria apenas um grande compositor. Continuaria sendo músico, sem se ater para o compromisso literário. Pode ser. Mas… deveria ser proibido debochar de quem se aventura em tentar despir a aura que cobre esse compositor desde que ele se entende por gênio. Mesmo assim, finquemos os pés no chão e façamos as ressalvas que lhe são justas, analisando o que leitura de Budapeste pode nos proporcionar.budapeste_chicobuarque

Budapeste é um romance não-linear, em que o personagem José Costa é o narrador e se alterna entre a Hungria e o Brasil. José é um escritor anônimo que constrói uma vida paralela em solo húngaro com a nativa Kriska, enquanto no Brasil, vive com a esposa Vanda e o filho Joaquim. Seu personagem é tão intensamente confuso, que se constrói e reconstrói a cada capítulo. Ama demais Vanda a ponto de vê-la em qualquer caminhar feminino, ao mesmo tempo que venera Kriska pela sua força, sua brancura e altivez. ChicoL

Sua invisibilidade é angustiante. Como profissional, trabalha para outros assinarem o vazio de sua obra. Por mais que pareça dedicado ao ofício, sente-se lisonjeado por ser parte da mentira da vida de alguém. Além de escrever o que não viveu e biografar a vida alheia, ele não faz parte nem do que acredita ser a sua própria vida. O filho cresce obeso e infantil, repetindo “mamãe”, enquanto ele pensa estar criando laços afetivos com o filho de sua amante. Vanda o ignora, Kriska o enlouquece sentimentalmente, sua língua o abandona e o húngaro o trapaceia a cada tentativa de aprendizado.

A metáfora do homem moderno, que quer pertencer a tudo e a todos pode ser vista também através da gradativa dispersão do personagem. O personagem viaja a cada conflito interno e a leitura é propositalmente confusa a medida que José se perde em sua própria identidade. José ou Zsoze? Um sócio ou um escravo? Um anônimo ou um sucesso? Seus fragmentos são parte de uma grande história sobre linguagem e identidade escrita por um compositor, sim. Mas nem por isso poética demais a ponto de comprometer sua estrutura. Um boa obra.







Budapeste
Autor: Chico Buarque de Hollanda
Gênero: Romance Brasileiro
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 176
ISBN: 978-85-359-0417-8
Preço Sugerido: R$ 38,50

quinta-feira, 21 de maio de 2009

[170] Escultura Viva [França.Br]

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Dando continuidade ao nosso especial Ano da França No Brasil, o tema desse post será a exposição “Tesouros do Louvre: Esculturas de Houdon”, que está aberta no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro.

b"O Atelier de Houdon", de Louis Léopold Boily

Jean Antoine Houdon foi um escultor francês que viveu entre 1741 e 1828 e ficou famoso por suas esculturas e bustos de figuras importantes do Iluminismo. Uma de suas obras mais importantes, L`Écorché, foi realizada a partir da análise da musculatura humana feita pelo próprio artista, para que ele adquirisse conhecimento necessário para retratar de forma mais natural as expressões corporais e faciais de seus modelos.

lecorche

L'Écorché

Ele alcançou seu objetivo e representou, muitas vezes em mármore, pensadores ilustres de sua época com uma perfeição admirável. A perfeição na textura de suas esculturas causa grande admiração, principalmente nas que estão expostas sem redomas e podem ser vistas mais de perto. Em alguns momentos chegamos a ter a impressão de que seria possível alguma daquelas esculturas simplesmente se movimentar e falar com quem a olha tão de perto.

morfeu

A exposição conta com 19 obras de Houdon, do Museu do Louvre, em Paris. As esculturas incluem Morfeu, Denis Diderot, Voltaire, Voltaire Sentado, Jean-Jacques Rousseau, Benjamin Franklin (executada durante visita desse à França) e George Washington (feita durante viagem do artista aos EUA), além dos relevos Monumento Funerário do Príncipe Alexandre Mikhaïlovitch Golitsyn e Apolo puxado pelo Vento. Todas as obras têm placas de identificação que contam um pouco sobre o contexto de execução de cada uma delas.

Além das esculturas, há também uma pequena mostra digital sobre a época de Houdon, telas com exposições interativas e reproduções da máscara funerária de Voltaire para que deficientes visuais possam tocá-las. O Museu Histórico Nacional fica um pouco escondido no Centro do Rio de Janeiro, próximo à Praça XV e ao Aeroporto Santos Dumont, mas é mais fácil chegar lá do que parece. Você pode ter mais informações sobre a localização no site oficial.


Tesouros do Louvre: Esculturas de Houdon (Curadoria de Guilhem Sherf)
Onde: Museu Histórico Nacional
Praça Marechal Âncora, s/nº, Centro (Prox.. à Praça XV)
2550-9220 / 2550-9224
Quando: De 29 de abril até 5 de julho
Ter-Sex das 10h às 17h30
Sáb, Dom e Feriados, das 14h às 18h
Quanto: Ter-Sáb, R$ 6,00
Domingo, entrada franca
Classificação Etária: Livre

[169] Ao Pé Da Letra

banner_chico Nos dias de hoje, a internet encurta distâncias e une pessoas de todo o mundo, mas tempos de globalização à parte, é difícil acompanhar a mudança de Português – Espanhol dos atores brasileiros ou não. Esse é um dos pontos de discordância sobre o filme Estorvo de Ruy Guerra, adaptado do livro homônimo de Chico Buarque.

estorvo1

Há quem diga que o estarrecedor foi a forma com que Ruy Guerra, roteirista e diretor, captou a linguagem de Chico Buarque e outras preocupações – a maneira de jogar com o tempo e o exercício de fragmentação cênica – como forma de traduzir essa realidade. Ainda assim, não agrada a todos os cinéfilos, mesmo eles sendo os únicos que assistiriam ao filme até o fim.

estorvo2

Estorvo é incômodo. A personagem principal é um homem paranóico que demonstra isto ao resolver não abrir a porta para um homem que ele supõe querer matá-lo. A partir daí, conhecemos (ou nos confundimos com) sua vida. A irmã rica e com TOC (transtorno obsessivo compulsivo) a quem pede ajuda para fugir de sei-lá-o-quê; a mãe que não fala com ele; a ex-mulher que o ignora; o amigo filósofo alcoólatra assassinado; a amiga drogada da irmã que tenta agarrá-lo…

estorvo3 Atores brasileiros, espanhóis e cubanos que ora falam em Português, ora em Espanhol, unidos a uma trilha sonora angustiante de Egberto Gismonti, causam certo desconforto. Cenas confusas, quadros curtos, personagem sem nome: não é filme para qualquer mente. Da mesma maneira que “eu”, o personagem principal, não consegue identificar o visitante que insistentemente toca a campainha e foge, a maioria espectadores não apreende o tema de Estorvo e sai correndo da frente da tela.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

[168] Texto Em Curvas

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estorvo. s.m. Impedimento; dificuldade; oposição.

estorvar. v.tr. 1. Causar estorvo a; embaraçar. 2. Dificultar; impedir.

Para iniciar nossa semana Especial Chico Buarque, hoje vou falar sobre o livro Estorvo. Primeiro romance de Chico Buarque, a obra foi publicada em novembro de 1991 pela Companhia das Letras e ganhou o Prêmio Jabuti de Melhor Romance em 1992. Sucesso de crítica na época, foi traduzido para diversos idiomas e acumulou elogios ao redor do mundo, entre eles os do Le Monde des Livres, da França, e do La Repubblica, da Itália.

Através de uma estrutura narrativa não-linear e em primeira pessoa, Estorvo conta alguns dias bem turbulentos na complicada vida de um "eu" não batizado. Entre problemas financeiros suprimidos pela irmã, uma separação mal-resolvida, visitas a um sítio decadente e várias lembranças da infância e da juventude, "eu" nos transporta por seus devaneios que não sabemos o quanto são reais, criando um ambiente de múltiplas possibilidades que deságuam em um desfecho surpreendente.

porta

O estopim inicial se dá quando um estranho (ou não) bate à porta de "eu" criando várias suposições acerca da identidade do visitante e das decisões não tomadas por ele durante toda a vida, criando os enigmas que amarram cada parte do livro às outras.


Apesar da estranheza inicial que a estrutura moderna do romance pode causar a alguns leitores, Estorvo cria um bom ambiente de leitura. O livro foi adaptado para o cinema por Ruy Guerra em 2000. O filme ganhou sete prêmios, entre eles o Kikito de Melhor Fotografia no Festival de Cinema de Gramado de 2000, e recebeu outras seis indicações, incluindo a Palme D'Or do Festival de Cannes do mesmo ano.




Estorvo
Autor: Chico Buarque de Hollanda
Gênero: Romance Brasileiro
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 160
ISBN: 978-85-359-0515-1
Preço Sugerido: R$ 39,50

domingo, 17 de maio de 2009

[167] Papel Cortado, Dobrado, Colado…

Você já se rendeu à nova moda artística que está sendo espalhada pela internet? Vários estilos de artes gráficas de simples impressão e montagem, que teoricamente podem ser feitos por qualquer um, estão se tornando cada vez mais populares entre os internautas, especialmente os adeptos da já famosa toy art.

cubeecraft Tudo começou no hemisfério norte, como a maioria dessas modas, mas a grande rede facilitou bastante na divulgação. Rapidamente pequenos bonequinhos de papel começaram a surgir em escritórios e laboratórios de informática, também aqui no Brasil. Os simpáticos CUBEECRAFT, primeiros do ramo a se tornarem mundialmente conhecidos, estão entre os de confecção mais simples. Exigem apenas uma impressora colorida, um bom papel e tesoura/estilete. E eu concordo plenamente com o criador do site, Christopher Beaumont, que diz nas “FAQs” que Cubeecraft é arte, sim senhor. Pra você ter uma provinha sem se desligar do assunto do momento, clique aqui para baixar um modelo inspirado pela Gripe Suína Influenza A.

dino

Acompanhado esse movimento, conheci vários outros exemplos dos chamados “papercrafts” (algo como “papel artesanal”). Tem o paperboxworld, que tem caixinhas de papel em formatos de animais, carros, abóboras… e também um tiranossauro que não é caixa, mas é legal. Vi o Papercraft Paradise, que reúne alguns espécimes estranhos, o Toypaper, com monstrinhos nada assustadores e o francês Ghetto Paper, que dá modelos de caixas que lembram os estojos das já esquecidas fitas cassete, só que em tamanho maior.

papertotem E você pode também construir os curiosos Paper Totem!, pequenas estátuas de papel que se encaixam umas sobre as outras formando um totem divertido e portátil. (Só para constar, de acordo com a Wikipedia, um totem é “qualquer objeto, animal ou planta que seja cultuado como deus ou equivalente por uma sociedade organizada em torno de um símbolo”, ou seja, aquelas esculturam empilhadas que aparecem nas tribos índigenas norte-americanas em desenhos animados.) Depois de todas essas opções, você já decidiu como vai gastar toda a tinta da sua impressora?

sábado, 16 de maio de 2009

[166] Cada Qual Com A Sua, parte 2

Todos nós temos alguma mania. Mexer no cabelo, deixar objetos organizados, querer o máximo de limpeza, entre outras.

asgoodasitgets

Algumas delas, quando intensas, podem ser consideradas pela psicologia como Transtornos Obsessivos Compulsivos (TOC’s). No filme “Melhor É Impossível”, por exemplo, Jack Nicholson representa com humor as manias de um paciente com TOC. Apesar de crônicos, segundo alguns especialistas, esses transtornos não comprometem as habilidades físicas e mentais do paciente.

CopacabanaPavement

Assim como as fobias, vamos deixar o lado patológico de lado. Ter manias é saudável e muitas vezes até engraçado. Andar em zigue-zague pelo calçadão de Copacabana para pisar apenas no branco (ou no preto) ainda não tem nome… mas, se você geralmente sente um impulso de andar sem destino, isso se chama drapetomania. Em outros casos, se a sua vontade é de andar no shopping e gastar dinheiro… além de uma vítima do capitalismo você pode ser também um oneomaníaco. E endividado.

Louis XIV

Os monarcas absolutistas, por sua vez (e os líderes religiosos hoje em dia), acreditavam serem inspirados por Deus… seriam enteomaníacos?

homemnu

Se constantemente as roupas não agradam… e você sente aquela incontrolável vontade de sair na rua nu, pode ser apenas uma nudomania. Já se a sua mania é de limpeza, e especificamente do salão, além de porcaria isso é chamado de rinotilexomania. Tire o dedo do nariz!

E que fique cada um com a sua mania.
Já deu nome para as suas?

quarta-feira, 13 de maio de 2009

[165] Roleta Russa

Considerado o fundador do existencialismo, o escritor russo Fiodor Mikhailovitch Dostoievski foi eternizado através do romance Crime e Castigo, considerado sua obra-prima. Mas não foi por um livro apenas que ele se tornou tão importante. Ele também influenciou grandes nomes da literatura mundial, como Marcel Proust, Friedrich Nietzsche, Jean-Paul Sartre e Sigmund Freud. Entre seus onze romances e mais de vinte obras, quase todas concluídas às pressas para cumprir contratos ou para cubrir necessidades financeiras, irei destacar no post de hoje O Jogador (Do diário de um jovem), de 1886.

Fjodor_signatur O Jogador não fugiu à regra dos trabalhos de Dostoievski e foi escrito em apenas vinte e cinco dias, o que levou o autor a publicar uma pequena nota em que se desculpa por se “apresentar ao público em tão más condições”. Apesar disso, ao longo de quase duzentas páginas ele representa de forma magistral e conquistadora a vida e os vícios de um apaixonado sem objetivos. Mais tarde seus biógrafos revelaram que o protagonista (e narrador) do livro, Aleksei Ivanovich, acabou sendo um personagem muito parecido com seu criador, com quem compartilhava, entre outras coisas, o vício da roleta e a constante falta de dinheiro.

Dostoevskij_1872 Aleksei narra, em primeira pessoa, para seu diário, as desventuras de sua vida atormentada e sua escravidão amorosa explorada pela bela Polina Aleksandróvina, enteada de um ex-general ex-milionário cuja família entra em decadência através das dívidas de jogo. Apesar de passar uma imagem requintada, a linguagem de Dostoievski é bastante simples, tornando a leitura mais fácil e agradável do que se espera de um autor tão renomado e, sem a menor dúvida, esse mérito pertence principalmente ao tradutor, Moacir Werneck de Castro. A tradução foi feita direto do russo, e vem acompanhada de uma introdução incluída por Moacir que contextualiza o livro, facilitando ainda mais a leitura, e das tradicionais notas de tradução que cobrem as pequenas falhas causadas simplesmente pelas diferenças entre os idiomas.

O Jogador rende uma leitura rápida e agradável, que continua atual apesar de ter sido escrita há mais de um século.




O Jogador (Do diário de um jovem)
Autor: Fiodor Dostoievski
Gênero: Romance Estrangeiro
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 192
ISBN: 978-85-286-0016-2
Preço Sugerido: R$ 33,00

quinta-feira, 7 de maio de 2009

[164] Nem Tudo É Verdade [França.Br]

A exposição "Meias Verdades / Demi Vérités" (28 de abril à 28 de junho), no espaço Oi Futuro, é mais um evento que faz parte do ciclo de homenagem à França no Brasil. A artista plástica Valérie Belin traz à mostra retratos que fazem jus ao título: de longe, as imagens parecem simples fotografias de rostos de mulheres. De perto, os detalhes saltam aos olhos e deixam a dúvida a respeito da veracidade dos contornos faciais, dos cabelos e do olhar. A ausência de "vitalidade" contrasta com a beleza das formas em uma busca pelo questionamento do falso. As máquinas, por sua vez, também fotografadas por Belin, deixam uma curiosa impressão contrária: há uma espécie de vida na concentração de engrenagens e metais.
bBelinMotor

Ao inverso da operação dos manequins - seres vivos tornados apáticos -, as máquinas se apresentam como organismos dinâmicos, recontextualizados em um mundo de luz.

Ligia Canongia, curadora.

bPierrickPortrait

Pierrick Sorin apresenta 2 instalações videográficas que trabalham com a crítica, o humor e o estranhamento. Uma delas, a obra “Retrato de cidade” (Portrait de Ville) é um quadro animado em que o personagem principal, o próprio autor, aparece representando cerca de 60 personagens diferentes, que percorrem um rio em movimento. O contraste do artista está na imagem do cenário digitalizada, que remete o espectador a um desenho animado, enquanto a as "caras e bocas" dos personagens chamam a atenção para a "realidade".
CalleDBlind O média-metragem "Double Blind - No Sex Last Night" é a atração de Sophie Calle, escritora, fotógrafa, artista plástica e performer francesa, que estará presente na VII edição da Feira Literária Internacional de Parati (FLIP) neste ano. Seu filme mistura fotografia e literatura no vídeo que concentra adversidades, sentimentos e confusões entre as emoções dos personagens durante uma viagem de carro. A questão da intimidade e da ausência de sexo entre o casal é repetitiva e se encaixa no contexto da exposição pois leva o espectador a pensar na relação dos dois como uma grande "mentira". Atuando como atriz juntamente com Greg Shepard, a autora produz um diário de viagem diferente, com duas câmeras, mostrando um sutil diálogo entre os registros da memória e as gravações do casal.


Meias Verdades / Demi Vérités (Curadoria de Ligia Canongia e Adon Peres)
Onde: Oi Futuro
            Rua Dois de Dezembro 63, Flamengo
            3131-3060
Quando: De 20 de abril até 28 de junho
                Ter-Dom das 11h às 20h
Quanto: Entrada Franca
Classificação Etária: 16 anos

“O Oi Futuro possui instalações adaptadas para portadores de necessidades especiais e fica próximo às estações do Metrô Largo do Machado e Catete”

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